Hoje estou convencido da necessidade de manifestar-me sobre um assunto que representa a violação de direitos outorgados pela cidadania. Certamente, qualquer um já viu homens enfileirados e com as mãos encostadas na parede sendo revistados por policiais. Muitos, também, já devem ter visto a abordagem que esses policiais costumam fazer dos que consideram “ suspeitos ” que quase sempre são pessoas, mal vestidas e, via-de-regra, negros ou pardos. Além disso, são detidos sob a mira das armas dos policiais aos gritos. O argumento é o de que a polícia, nessas abordagens, corre o risco de ser recebida a tiros e que, portanto, tem o direito de se antecipar a uma possível reação como essa apontando armas para quem por alguma razão considere que pode ser um perigoso criminoso. Às revistas que policiais militares fazem pelas vias públicas, nas cidades e nas estradas. Essa atitude sempre me incomodou. Quando faço afirmações gosto de ter argumentos para sustentá-las. Quando vejo cidadão rico ou pobre, preto ou branco pelas ruas, com as mãos na parede sob a mira das armas da polícia, sendo revistados sempre imaginei que devessem ter feito alguma coisa para levantar suspeitas que justifiquem abordagem tão vexatória, humilhante... Mas na realidade trata-se de uma grosseira violência aos direitos humanos. Vou relatar um caso que presenciei recentemente na Leste Oeste. Estava eu aguardando ser liberado de uma “blitz” que são comuns naquele trecho. ( Fui atendido cortesmente, o Senhorpolicial deu-me bom dia, perguntou se tinha arma no carro, com a resposta negativa passou a verificar os documentos do veiculo... Nada mais que correto !). Assisti então, a uma abordagem de um motoqueiro: “Pára aí, meu chapa! Mãos na cabeça! Esta moto é roubada!” Fiquei surpreso, ou melhor, estarrecido. Não entendi por que razão a polícia havia abordado o rapaz daquele jeito. Fiquei estático olhando a revista do jovem, “os sutis pontapés” na parte interna de seus calcanhares para que abrisse mais as pernas. Não me contive e disse: “O que vocês estão fazendo?” - perguntei ao guarda num tom pouco acima do normal. “É que estamos procurando um ladrão de motos e vimos este aqui com essa mochila nas costas...” Disse: “ele me parece um moto boy, e deve estar indo fazer umas entregas...” “É seu funcionário?” Disse que não. O policial disse-me que “então, tudo bem”. Dr. temos que ser duros. Ante meu olhar sério, denotando falta de aprovação, o policial pediu, agora com educação, para que o detido abrisse a mochila enquanto o outro policial olhava, re-olhava e olhava mais uma vez seus documentos. O rapaz, por sua vez, estava com os olhos cheios d'água. Mas tinha uma expressão “conformada” que tentava, em vão, disfarçar sua dor e humilhação. Agora sei porque me incomoda nesse tipo de abordagem que a polícia faz nas vias públicas de quem considera “suspeito”. O que fundamenta o conceito de suspeição dos policiais? O desnível social?Não é possível ser considerado normal, policiais aos gritos, ter uma arma apontada para a própria cabeça do abordado e, este receber pequenos pontapés entre os calcanhares, além de ser apalpado de cima a baixo? Em minha opinião: os critérios para esse tipo de ação da polícia têm tudo a haver com a etnia e o vestuário dos transeuntes. E esse, para mim, é um outro grande aspecto doloroso da desigualdade brasileira. Ser pobre e da etnia oprimida, neste país, é pré-condição para ser “suspeito” de alguma coisa, de algum crime. Temos o dever de protestar contra mais essa agressão aos cidadãos desprivilegiados. Será que não haverá alguém com algum poder para interferir nesse tipo de ação da polícia que venha a compreender o que foi que me incomodou tanto e me levou a escrever isto? “Espero que sim, pois John Kennedy já ensinava: O conformismo é o carcereiro da liberdade e o inimigo do crescimento”. Evilázio Ribeiro |