Nenhum outro foi tão efetivamente católico, apostólico e romano. Viajando pelo mundo, pregando e orando com as multidões e como zeloso e inflexível guardião da doutrina e dos princípios morais nela imanentes, foi insuperável! Nenhum continente, nenhum país, ninguém, enfim, queixa-se do diferente Papa, polonês atleta, ator, soldado, operário, literato, poeta e poliglota prodigioso. Mas, todos os seus atributos e a sua trajetória não calam os que exigiam dele a submissão às tendências da moda temporais e transitórias. Seria João Paulo um conservador rígido e indiferente? Não. João Paulo foi um invencível renovador. Aquele homem levado à clandestinidade durante o nazismo e fundamental na queda da tirania comunista, era um libertário. A pureza do coração, a justiça, a sapiência, a adesão às instituições sagradas, são atributos raríssimos. (Platão, em Crítias,110 c; 120 d-e; 121 a-b, sobre os míticos "atlânticas" descendentes dos deuses (500 A.C.): "A sua participação na natureza divina começou a diminuir devido à múltipla e freqüente mistura com os mortais e prevaleceu a natureza humana." Ou Cícero, em De Leg. II,II ensinando: "Antiquitas proxime accedit ad Deos." Esses dois gigantes do pensamento humano compreenderiam João Paulo II. Sua consciência da natureza divina do homem fez com que separasse o transitório do permanente e o essencial do supérfluo. João Paulo viu muito além dos confusos conceitos modernos. Seu senso de justiça e profundo humanismo colocaram-no à frente do seu tempo na defesa da vida e da liberdade. Como chefe da Igreja renovou sua disciplina preservando intocáveis os seus cânones. Um homem sintonizado com todos os povos, gerações, raças, religiões e com cada um de nós, em particular, poderia ceder às pressões dos diversos "Cavalos de Tróia" os autoritários que querem servir-se da Igreja como avalista de suas ambições menores? João Paulo, antes do seminário, foi operário, estudante e ator. Logo, não era estranho à vida mundana. A justiça social se realiza na liberdade eticamente responsável. Soa como algo antigo e superado? O antigo, no entender de Cícero, nos aproxima do acesso a Deus. Superada, a cada dia, é a ausência de escrúpulos e de decência. João Paulo não só pertence à história. Ele a escreveu e a corrigiu ao pedir perdão por erros cometidos pela Igreja ao longo dos tempos. Libertad, Libertad clamaram os cubanos na sua presença. Palestinos e judeus, chineses e indianos, australianos e polinésios foram conquistados pela sua "personalidade" que arrebatava humildes e poderosos. Não há no século passado, nem neste ainda, nenhuma personalidade que a ele se compare em influência além de todas as fronteiras humanas. Mas ele foi, acima de tudo, o nosso João de Deus. Sentimos envergonhados quanto o "Aerolula", (apelido do avião presidencial) levantou vôo da Base Aérea de Brasília, com todas as cadeiras ocupadas pela comitiva ecumênica, montada pelo presidente Lula, com inegável marketing político. Superou até presidente George Bush que, além da mulher, a primeira-dama e do papai, apenas recrutou o ex-presidente Bill Clinton para enfeitar a comitiva americana.Evilázio Ribeiro |